Einstein visitou o Brasil em maio de 1925, quando retornava de sua estada
de um mês na Argentina. Durante a semana que permaneceu no Rio de
Janeiro, ele estabeleceu um estreito contato com a comunidade científica
local. Einstein deu duas palestras sobre a Teoria da Relatividade, a primeira
parte teve lugar no Clube de Engenharia, e a segunda na Escola Politécnica
do Rio de Janeiro. Foi recepcionado na Academia Brasileira de Ciências,
onde deu uma palestra sobre A situaicão atual da teoria da luz, e visitou várias
instituições científicas como o Observatório Nacional, o Museu Nacional, o
Instituto Oswaldo Cruz e o Hospital dos Alienados. Além disso, Einstein
participou de recepções e de descontraídos passeios pela cidade.
[
1]
A visita de Einstein coincidiu com um período de redefinições na ciência
brasileira, competindo para a explicitação das diferentes opiniões e das
controvérsias em curso. Sua presença, por um lado, estimulou o debate em
torno das novas teorias científicas que surgiam por essa época e das
concepções de ciência subjacentes e, por outro, posicionou politicamente as
instituições científicas. Muitos artigos foram publicados nos jornais, tanto
explicando como contestando a validade da Teoria da Relatividade. Essa
discussão iniciada na imprensa foi posteriormente extendida para as seções da
Academia Brasileira de Ciências. Os debates sobre conceitos científicos
englobavam, na verdade, questões mais amplas, como a importância da
ciência pt.ra, desinteressada e sem utilidade prática, em contraste com uma
perspectiva que valorizava quase exclusivamente sua função enquanto fator
de promoção social. Outra questão colocada com frequência era a do modelo
das instituições de ensino superior, propondo a universidade, enquanto
espaço acadêmico para a pesquisa ao lado da atividade didática, em oposição
aos institutos de pesquisa aplicada ou as escolas voltadas para o ensino
técnico e utilitário. A movimentação para receber o grande sábio também
explicita, se bem que de forma bem mais sútil, as posições que os diversos
cientistas e suas instituições ocupavam no meio científico e político da época.
A escolha dos membros da Comissão de Recepção, as instituições que ele
visitou, ou as pessoas que tiveram o privilégio de conhecê-lo pessoalmente, ou
mesmo recebê-lo em sua casa, retratam em grande parte a influência,
prestígio e consagração desses personagens. Por fim, sua visita foi
extremamente documentada, levando os conceitos científicos, e os próprios
cientistas e suas instituições a frequentarem diariamente a primeira página
dos principais jornais do país e, em especial, da capital federal. Tudo isso
torna o momento da visita de Einstein um retrato instantâneo da ciência
naquele período no Rio de Janeiro.
Grande parte do modelo científico vigente naquela época no Brasil era
decorrente do projeto de modernização, implantado principalmente a partir
da Proclamação da República, em 1889, objetivando promover um surto de
desenvolvimento e transformação do país. Esse projeto icluía a expansão da
agricultura para o mercado mundial, urbanização das cidades, extinção das
doenças infecciosas que infestavam as cidades e os portos, demarcação e
interligação do território nacional através de estradas de ferro, rodovias e telégrafo, e de uma intensa atividade geológica e geográfica. A ciência e a
técnica assumiram um papel preponderante nesse processo de modernização,
fornecendo os conhecimentos e meios necessários á sua realização. Elas eram
valorizadas em especial enquanto detentoras de um saber prático e utilitário
que permitia a realização desse projeto. Num período de poucos anos foram
criados vários institutos de pesquisa com o objetivo de dar suporte á
agricultura e debelação de doenças, e escolas e faculdades de nível superior
com nítida inclinação para a esfera produtiva.
[
2] De forma semelhante,
instituições científicas criadas anteriormente, na época do Império, tiveram
suas funções redefinidas no sentido de responder a essa demanda utilitária,
como o Imperial Observatório, rebatizado de Observatório Nacional, que
redirecionou suas atividades para a demarcação de fronteiras e pontos
geográficos do território nacional, a determinação da hora certa e o serviço
meteorológico. E, as escolas politécnicas ganharam importância, formando
engenheiros capazes de responder as demandas nacionais e assumir tarefas na
construção de estradas de ferro, iluminação pública, construção de grandes
avenidas, urbanização das cidades, etc.
O envolvimento do meio acadêmico nesse processo de modernização
implicou muitas vezes numa significativa complementação salarial, e na
participação na administração pública e em cargos políticos. Professores e
engenheiros provenientes das escola politécnicas foram responsáveis por
grandes obras nas cidades e nos sistemas de comunicação, e médicos
sanitaristas desenvolveram um amplo programa sanitário e eugênico. Havia
uma espécie de ciclo de retroalimentação, onde muitas vezes o prestígio
acadêmico levava a possibilidade de convite para um cargo administrativo,
ou a participação no projeto de Estado fornecia prestígio para a atividade
acadêmica. Os exemplos são muitos, entre eles podemos citar alguns
relacionados á visita de Einstein, como Paulo de Frontin, que foi Diretor
da Estrada de Ferro Central do Brasil e Ministro das Obras Públicas,
tornando-se posteriormente Prefeito do Distrito Federal, deputado e senador,
enquanto paralelamente exerceu os cargos de Diretor da Escola Politécnica
do Rio de Janeiro e Presidente do Clube de Engenharia. Outro nome
importante é o de Getúlio das Neves, que havia sido Vice-Governador do
Rio, e era catedrático da Politécnica e Vice-Diretor do Clube de Engenharia.
Na área da agricultura se destaca Arthur Neiva, Diretor do Museu Nacional
e ativo participante na debelação das pragas na cultura cafeeira. Pode ser
citado ainda Oswaldo Cruz, na área de medicina sanitária, que a partir do
prestígio conseguido com a campanha contra a Febre Amarela no Rio de
Janeiro, criou o Instituto de Manguinhos, dedicado a estudos sobre doenças
infecciosas e parasitárias, e a produção de soros e vacinas. E, por fim,
Henrique Morize, Diretor do Observatório Nacional e Presidente da
Academia Brasileira de Ciências, que havia participado anteriormente de
expedições demarcatórias de fronteiras e pontos geográficos.
Por essa época, imperavam no Brasil os debates em torno das idéias ligadas
ao evolucionismo, em especial aqueles provenientes da França, como o
darwinismo biológico e social, materialismo filosófico e político e o
positivismo. Esse último se fazia presente mais pela sua concepção de ciência
do que pelos conceitos matemáticos propriamente ditos. É possível encontrar
artigos contrários aos conceitos matemáticos de Comte escritos por
professores da Politécnica ligados ao pensamento positivista, como de Otto
de Alencar, que frequentou por muitos anos o Apostolado Positivista,
rompendo posteriormente com ele, ou Licínio Cardoso, um reconhecido
defensor do positivismo.
[
3] Além disso, no Brasil, a doutrina de Comte se
confundia com a idéia utilitária da ciência, em primeiro lugar, porque o
positivismo concedia á ciência um caráter de exatidão, tentando livrá-la de
qualquer caráter metafisico. Ele se estruturava em grande parte sobre a
mecânica, a geometria geral e o cálculo infinitesimal, áreas que já haviam
mostrado sua utilidade prática. E, em segundo lugar, por sua proposta de
construção de uma sociedade científica erguida em bases morais e materiais
sobre o conhecimento científico, absorvida pelo projeto republicano de
construção de uma nova sociedade no Brasil.
A partir do final do Século XIX e primeiras décadas do Século XX
começaram, paralelamente, a penetrar no Brasil as novas teorias surgidas nas
áreas da fisica e da matemática como as Teorias de Campo de Maxwell, a
geometria não euclidiana de Gauss, o eletromagnetismo, a radioatividade, e
mesmo a Relatividade. Porém, essas teorias tinham mais ressonância junto
aos alunos e professores mais jovens, evidenciando diferenças conceituais a
partir de uma espécie de conflito de geracões.
[
4] Alguns nomes de destaque
nesse grupo foram os de Manoel Amoroso Costa, Roberto Marinho de
Azevedo, Theodoro Ramos e Felipe dos Santos Reis, entre outros. Por vezes,
havia a clara intensão de rivalizar e polemizar com os professores ligados ás
concepções mais tradicionais de ciência, com o objetivo de marcar uma
distinção.
[
5] O interêsse pelas novas teorias, aparentemente sem utilidade
prática imediata, vinha acompanhado de um discurso em prol da ciência pura
e desinteressada. Para eles, a ciência não deveria ser vista apenas como um
meio para a reforma social e econômica, mas também como uma fonte de
conhecimento e harmonia. Contudo, essa relação era, muitas vezes, ambígua
e contraditória, diante do impasse em que se viam muitos cientistas causado
pela absorção das novas teorias dentro de um ambiente acostumado a idéia
utilitária da ciência. Um exemplo paradigmático é o discurso de Henrique
Morize na Academia Brasileira de Ciências, introduzindo a palestra de Émile
Borel sobre a Teoria da Relatividade, tentando conciliar as duas idéias:
"(...) toda a verdade, mesmo a mais abstrata, vem, depois de
decorridos tempos mais ou menos longos, a fornecer aplicações
diretas, que contribuem ao bem estar da humanidade". [6]
Em vários ocasiões durante a visita de Einstein foi evidenciado esse debate
em torno da ciência pura. Assim, por exemplo, o acadêmico Mario Ramos
afirmou em seu discurso na Academia Brasileira de Ciência durante a visita
de Einstein que aquelas eram "palavras de homenagem de novos cientistas de
outra banda, onde o ambiente ainda não é tão favorável ás especulações da
ciência pura".
[
7] De forma semelhante, o próprio Einstein fez referência ao
problema da ciência pura na América do Sul durante um almoço com vários
cientistas, assim transcritas pelo jornalista Assis Chateaubriand, que estava
presente:
"O estudo desinteressado da ciência pura, quase não existe. Os
professores não dedicam, na maioria dos casos, as suas energias,
a sua força intelectual, o seu tempo, exclusivamente á
investigação científica, coisa que Einstein nos recomenda, como
indispensável ao progresso e a independência espiritual da
nação". [8]
As novas teorias que iam mudando a feição da ciência também exigiam
locais específicos para sua realização como as faculdades de ciências, ou
mesmo as universidades, visto a vocação eminentemente utilitária dos cursos
nas faculdades e escolas técnicas. Nessa reivindicação por um espaço
apropriado para o desenvolvimento da ciência pura estava embutida a
demanda por mais tempo para desenvolver suas pesquisas, e uma
remuneração adequada que lhes permitisse uma dedicação exclusiva, para
não precisarem buscar outras atividades.
[
9] Em 1920, havia sido criada a
Universidade do Distrito Federal, reunindo as já existentes Escola
Politécnica, Escola de Medicina e Faculdade de Direito, mas mantendo as
características tradicionais de cada uma. Esta iniciativa certamente não
respondeu aos anseios por um espaço para o desenvolvimento da ciência pura.
Dois grandes defensores dessa idéia foram Amoroso Costa e Miguel Ozório
de Almeida, que se dedicavam á matemática e fisiologia, respectivamente.
Amoroso Costa era professor da Politécnica, e havia participado de uma
iniciativa anterior frustrada, quando em 1919 a Academia de Altos Estudos
do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro criou a Faculdade de
Philosophia e Letras, que durou apenas 2 anos. Ozório de Almeida, por
outro lado, estudava a química no interior do organismo, e desenvolvia boa
parte de suas pesquisas num pequeno laboratório montado no porão de sua
residência. Numa reunião da Associação Brasileira de Educação, em 1927, ele
disse
"que tinha pensado resolver este problema, desenvolvendo o
estudo das ciências básicas no curso das atuais escolas supe-
riores, mas que a prática mostrou ser impossível o desenvolvi-
mento da pesquisa científica nestas escolas profissionais.
Declara ainda que, em uma reunião em que tomou parte,
presidida pelo Ministro da Justiça, ficou assentada a criação da
Faculdade de Ciências". [10]
Coube ao pequeno grupo de alunos/professores da Escola Politécnica do
Rio de Janeiro os primeiros trabalhos divulgando ou mesmo pesquisando
sobre a Teoria da Relatividade.
[
11] Amoroso Costa publicou um pequeno
artigo no O Jornal explicando a Teoria da Relatividade 6 dias após o anúncio
da sua confirmação na sessão conjunta da Royal Society e Royal
Astronomical Society.
[
12] Ele fez várias palestras e artigos para os jornais e,
três anos depois, publicou o primeiro livro sobre Relatividade no Brasil,
intitulado Introducão á Teoria da Relatividade.
[
13] De forma semelhante,
Roberto Marinho publicou em 1920 diversos artigos sobre a Teoria da
Relatividade na Revista de Sciencias e na Revista Brasileira de Engenharia
[
14] , e
também Theodoro Ramos apresentou na Academia de Ciência, em 1923,
uma comunicação relacionada ao tema.
[
15]
[
16]
Contudo, esse grupo era reduzido, e começava ainda a sua própria inserção
no panorama científico internacional. Não havia, por essa época, contato do
meio científico brasileiro com Einstein ou seu trabalho que justificasse um
convite para vir ao Brasil. Além disso, as áreas de matemática, astronomia e
engenheira tinham um vínculo maior com a ciência desenvolvida na França, e
os trabalhos científicos, independente de serem produzidos na Alemanha,
Inglaterra, Holanda, ou qualquer outro país, terminavam entrando no Brasil
por intermédio da ciência francesa. É, por exemplo, significativo, que o
primeiro cientista estrangeiro a dar uma palestra sobre a Relatividade no
Brasil tenha sido Émile Borel, na Academia de Ciências, por ocasião das
comemorações do I Centenário da Independência, em 1922. Nesse ano foi
criado ainda o Instituto Franco Brasileiro de Alta Cultura, objetivando
intensificar o contato do meio científico francês com o brasileiro. A
bibliografia utilizada era quase exclusivamente francesa, ou traduzida para
o francês.
[
17] Einstein chegou a afirmar que não possuía fluência em francês, e
não sabia se o entenderiam se falasse em alemão. Paes Leme, um dos
anfitriões, ainda tentou contornar o problema argumentando que a
linguagem de Einstein era a matemática, e esta é universal. Mas, no final,
suas conferências tiveram de fato que ser dadas em francês.
[
18] Diferentemente,
os possíveis contatos com Einstein, ainda que esporádicos, provinham de
outras áreas e por outros motivos que não aqueles ligados á atividade
científica propriamente dita, como o médico Aloysio de Castro, Diretor da Escola de Medicina, e representante do Brasil na Liga das Nações, a qual
Einstein também pertencia, ou o também médico Silva Mello, que durante
sua estada na Alemanha havia sido assistente dos cursos de Ehremann,
médico particular de Einstein. Ou ainda o jurista e filósofo Pontes de
Miranda, que lhe enviou um artigo de sua autoria, onde discutia as
implicações metafísicas da Teoria da Relatividade Geral, e remetido por
Einstein para o V Congresso Internacional de Filosofia, realizado em
Nápoles em 1924.
[
19]
Essas dificuldades explicam, de certa maneira, a forma tardia com que o
Brasil entrou no roteiro de viagem de Einstein. A movimentação para levar
Einstein a América do Sul se tornou pública com a divulgação da noticia de
que o Consejo Superior Universitário da Universidade de Buenos Aires havia
decidido convidar oficialmente Albert Einstein para dar um ciclo de
palestras.
[
20] Esse era o resultado de uma grande movimentação iniciada em
abril de 1922 envolvendo o Centro Estudiantes de Ingeneria, a Asociacion
Hebraica e o Instituto Cultural Argentino Germana. A resposta afirmativa de
Emstein veio apenas em 24 de julho de 1924, marcando a viagem para o inicio
do ano seguinte.
[
21] Todo o contato da Universidade de Buenos Aires com
Einstein foi feito através do reitor José Arce e do secretário Mauricio
Ninerstem, sempre através da representação argentina em Berlin.
[
22] O meio
científico brasileiro esteve alheio a esse processo, somente sendo informado
da vinda de Einstein através do rabino da comunidade judaica no Brasil,
Isaiah Raffalovich. Este soube através do Presidente da Hebraica de Buenos
Aires que o navio de Einstein passaria pelo porto do Rio de Janeiro, e seria
uma oportunidade de recebê-lo no país. O Presidente da Hebraica teve o
cuidado de alertar Raffalovich de que Einstein tinha por principio aceitar
apenas convites de instituições científicas, em caráter oficial. Raffalovich
contatou então Ignacio do Amaral, Professor da Escola Politécnica, que
levou a sugestão ao Conselho da Universidade. Entretanto, coube ao próprio
Raffalovich enviar a carta convite a Einstein em nome de Aloysio de Castro,
Diretor da Faculdade de Medicina, e de Paulo de Frontin, Diretor da Escola
Politécnica do Rio de Janeiro e Presidente do Clube do Engenharia.
[
23]
Diferentemente da Argentina, o convite brasileiro não faz qualquer referência
a Universidade do Rio de Janeiro, ou ao então reitor Barão de Ramiz
Galvão, caracterizando a autonomia das diversas faculdades diante de uma
Universidade que funcionava apenas como uma espécie de guarda-chuva
institucional. Mesmo nas recepções oficiais oferecidas a Einstein, ou na
palestra feita na Escola Politécnica, que pertencia a Universidade, não há
referências quanto a presença do reitor.
Einstein já era nessa época uma personalidade muita famosa, e foi montada
uma grande recepção para recebê-lo quando de sua passagem a caminho da
Argentina no dia 21 de março. Roberto Marinho de Azevedo, Theodoro
Ramos e Léfo Gama, este último também ex-aluno da Politénica e
astrônomo do Observatório Nacional, ganharam amplos espaços n'O Jornal
para explicar a Teoria da Relatividade. Paralelamente, O Imparcial publicou
um artigo de Alphonse Berget, apresentando suas objeções á Teoria da
Relatividade.
[
24] Uma grande comitiva foi recebê-lo no pôrto, composta por
Paulo de Frontin - Diretor da Escola Politécnica, Conde de Affonso Celso -
Diretor da Faculdade de Direito, Aloysio de Castro - Diretor da Faculdade
de Medicina, além de vários professores e engenheiros. Também estavam
presentes membros da comunidade judaica, entre os quais o Rabino
Raffalovich, e muitos jornalistas.
Einstein foi recebido no cais, e levado numa grande comitiva composta de
vários carros numa visita ao Jardim Botânico, e em seguida a um almoço no
Hotel Copacabana Palace. Um tema constantemente levantado durante sua
visita, seja nos artigos publicados nos jornais, nas entrevistas com os
jornalistas, ou durante o almoço, foi o eclipse do Sol, observado em Sobral,
no nordeste do Brasil, em 1919, por uma expedição inglesa, e que comprovou
a previsão matemática de Einstein da deflexão da luz pelo campo
gravitacional do Sol. Assim, durante o almoço Einstein presenteou seus
anfitriões com uma pequena frase escrita num pedaço de papel:
"Die Frage, die meinen Kopf entsprang,
hat Brasilien sonniger Himmel beantwortet.
Albert Einstein 1925"
[
25]
Sobre essa frase, Gago Coutinho comentou posteriormente em sua crítica a
Teoria da Relatividade:
"Assim o Relativismo aproveita romanticamente o prestígio
popular dos eclipses do sol, á semelhança dos primitivos
descobridores, para fazer a conquista intelectual da América". [26]
Após o almoço, Einstein foi levado de volta ao navio, quando aproveitou
para dar uma pequena volta a pé pelo centro da cidade.
Sua estada mais longa se deu no início de maio, quando retornou da
Argentina e Uruguai. Paulo de Frontin viajou nesse meio tempo para a
Europa, e ficou a cargo de Getúlio das Neves, Vice-Presidente do Clube de
Engenharia, coordenar a programação científica de Einstein. Apenas poucos
dias antes da chegada de Einstein ao Rio, a Academia Brasileira de Ciências
se juntou á Escola Politécnica do Rio de Janeiro e ao Clube de Engenharia
compondo uma Comissão de Recepção.
[
27] Na realidade, diferentemente do
que é em geral divulgado, a Academia Brasileira de Ciências teve uma
pequena responsabilidade pela vinda de Einstein ao Brasil, entretanto sua
participação terminou sendo de grande importância por outros motivos a que
vamos nos referir mais adiante. A Comissão foi integrada por Getúlio das
Neves, Henrique Morize, Adolpho Murtinho, Alfredo Lisboa e Izidoro
Kohn, este último como Presidente da recém-criada Comunidade Israelita
Brasileira.
Einstein retornou ao Rio de Janeiro na noite do dia 4 de maio, já bastante
cansado dos quase três meses de viagem. Ele ficou hospedado no Hotel
Glória. O dia seguinte foi dedicado a descanso, de manhã foi ao centro da
cidade com Izidoro Kohn, e almoçou em sua casa.
[
28]
Á noite recebeu a visita
de membros da comunidade judaica. Também esteve presente o Diretor da
Faculdade de Filosofia, Wladimir Garcia, para entregar um diploma de
honra da Congregação. A Faculdade tinha sido criada recentemente e não foi
incluída na programação.
[
29] No dia 6, iniciou seus compromissos oficiais. Ele
foi recebido pelo Presidente da República, Arthur Bernardes, e á tarde deu
sua primeira conferência, no Clube de Engenharia. Compareceu um público
composto de políticos, militares, embaixadores, e engenheiros, com suas
esposas e filhos, retratando o próprio perfil de seus membros. Fundado em
1880, o Clube de Engenharia não possuía um caráter científico, seu objetivo
principal era "o desenvolvimento material do país e o progresso das empresas
de engenharia no Brasil", congregando além dos engenheiros, também
industriais relacionados com trabalhos de engenharia e membros da
administração de empresas públicas e privadas.
[
30] Getúlio das Neves, que
estava presidindo a sessão, fez inicialmente uma rápida apresentação, e
somente então introduziu Emstein no salão acompanhado por uma comissão
de recepção e os aplausos ressoanantes do público. O salão estava
completamente lotado, sendo que poucos tinham conhecimento matemático
suficiente para acompanhá-lo em sua exposição. De qualquer forma, Einstein
deu sua conferência sobre a Teoria da Relatividade, como estava previsto. Á
noite, sozinho em seu quarto de hotel, escreveu em seu diário:
"Ás 4:00 horas, primeira conferência no Clube de Engenharia
numa sala superlotada, com ruído da rua, as janelas abertas.
Não tinha nenhuma acústica para se poder entender. Pouco
científico". [31]
No dia seguinte, Einstein foi recebido na Academia Brasileira de Ciências,
que congregava parte significativa dos cientistas do Rio de Janeiro.
[
32]
Diferentemente do Clube de Engenharia, a Academia foi criada em 1916 para
constituir um fórum de discussão e divulgação da ciência, e marcou o início
da organização da comunidade científica, interligando acadêmicos de áreas
distintas, e criando um jornal para publicação dos trabalhos desenvolvidos no
país. Ela congregava tanto acadêmicos ligados a concepções mais tradicionais
de ciência, como aqueles que reivindicavam novos espaços para a atividade
acadêmica. Destes últimos saíram, através da Academia, algumas propostas
para a criação de faculdades ou institutos de ciência.
[
33]
Para a homenagem a Einstein compareceu quase uma centena de pessoas,
incluindo acadêmicos, políticos, jornalistas, e membros de várias instituições
de ensino. O Vice-Presidente, Juliano Moreira, fez um discurso inicial sobre a
influência da Teoria da Relatividade em outras áreas do conhecimento, como
em particular a Biologia. Dessa forma, ele fazia para a Relatividade o mesmo
movimento que o positivismo fez para a mecânica newtoniana, tornando-a
modelo para as demais áreas do conhecimento. A seguir, entregou a Einsteín
um diploma de sócio correspondente, iniciando uma prática da Academia que
seria seguida com outros visitantes ilustres, como na visita de Marie Curie no
ano seguinte. Depois foi a vez do acadêmico Francisco Lafayette fazer uma
longa digressão sobre a obra de Einstein, desde seus primeiros trabalhos
sobre o movimento browniano até a síntese mais recente da Relatividade. Por
fim, fez um discurso o acadêmico Mario Ramos, instituindo o Prêmio Albert
Einstein a ser entregue anualmente ao melhor trabalho apresentado na
Academia.
[
34] Einstein, ao invés de fazer um discurso de agradecimento, fez
uma conferência sobre A situacão atual da Teoria da Luz. Essa palestra, cujo
manuscrito descobrimos recentemente no Rio de Janeiro, veio a cobrir uma
lacuna existente nos escritos de Einstein sobre a teoria quântica.
[
35]
Por fim, no dia 8 de maio, Einstein proferiu na Escola Politécnica a segunda
parte de sua palestra sobre a Teoria da Relatividade. Mas, dessa vez, foram
tomadas várias precauções para limitar o público, a ponto de um dos jornais
escrever:
"Felizmente, na reunião de ontem, graças as notáveis medidas
tomadas, a fim de evitar a invasão do recinto por grande
número de pessoas, o Prof. Einstein pode desenvolver a sua
palestra sob um ambiente tranquilo, e dessa maneira os
cientistas brasileiros acompanharam-no passo a passo na sua
exposição". [36]
A parte científica do programa incluía ainda a visita a algumas instituições,
recepções, e encontros com pessoas que, na maioria das vezes, não possuíam
relação direta com a sua atividade científica. Essas escolhas estavam mais
relacionadas a prestígio institucional ou mesmo pessoal, apesar de em todos
os locais, Einstein ter demonstrado interesse e curiosidade.
A primeira instituição a ser visitada foi o Museu Nacional, que funcionava
no Palácio da Quinta da Boa Vista, antiga residência do Imperador D. Pedro
II. Einstein foi recebido pelo antropólogo Roquete Pinto, subsituto do diretor
Arthur Neiva, que se encontrava na época em São Paulo envolvido com uma
praga na cultura do café. Einstein teve contacto com objetos indígenas,
esqueletos de animais, e tomou conhecimento das teorias eugenicas que
imperavam em grande parte do meio científico local, prevendo o futuro
"branqueamento" do Brasil. Segundo essas teorias, o negro iria desaparecer
em função da mistura racial para dar lugar ao mulato -e este, por sua vez,
estaria fadado a desaparecer por sua pequena resistência. Após a visita,
Einstein foi convidado para um almoço na casa de Aloysio de Castro.
Estavam presentes os médicos Miguel Couto e Silva Mello, Getúlio das
Neves, Henrique Morize, o engenheiro Daniel Henninger e o arqueólogo e
egiptólogo Alberto Childe. Além deles, se encontravam a escritora Rosalina
Coelho Lisboa, Noca Cerqueira, e o jornalista Assis Chateaubriand, dono
d'O Jornal. Era, portanto, um grupo escolhido para um almoço descontraído,
sem qualquer objetivo científico mais explícito.
No dia 8, antes da palestra na Politécnica, Einstein visitou o Instituto de
Manguinhos, situado num castelo de estilo mouro no alto de uma colina. O
Instituto se dedicava ao estudo das doenças infecciosas tropicais, seguindo o
modelo do Instituto Pasteur de Paris. Ele recebeu um grande impulso com um
consequente redirecionamento científico e novas construções a partir de 1903,
quando Oswaldo Cruz assumiu o cargo de Diretor Geral da Saúde Pública,
com o projeto de erradicar no Rio de Janeiro a febre amarela, a varíola e a
peste bubônica. Emstein foi recebido pelo Diretor, Carlos Chagas, que havia
desenvolvido um importante trabalho sobre doenças parasitárias que afligiam
boa parte da população brasileira. Ele visitou o Museu Oswaldo Cruz, o
Museu de Anatomia Patológica, laboratórios, biblioteca, além de passear
pelas dependências do castelo e pelo terraço com vista panorâmica.
No sábado, Emstein esteve no Observatório Nacional, recém instalado num
novo prédio em São Cristóvão. Ele encontrou astrônomos que haviam
participado do eclipse em Sobral em conjunto com a expedição inglesa. Além
disso, visitou as dependências do prédio e instrumentos de sismologia,
transmissão do sinal horário, e determinação de elementos magnéticos. Teve
ainda oportunidade de ver grandes instrumentos, como uma luneta
equatorial, onde trabalhava Domingos Costa, e uma zenithal, usada pelo
assistente Lélio Gama.
Ao longo de sua estada, Â sendo incluídos outros encontros ou visitas
não previstas inicialmente na programação. Ele esteve algumas vezes com o
médico Silva Mello, sempre de forma descontraída e longe dos jornalistas e
autoridades. No dia 6 eles fizeram um passeio pelos morros de Santa Tereza,
quando tiveram oportunidade de conversar sobre "as pequenas intrigas da
Faculdade".
[
37] No sábado, após a visita ao Observatório Nacional, Einstein
almoçou em sua residência, e depois  á pé a casa dos irmãos Álvaro e
Miguel Ozório de Almeida, conhecer o laboratório doméstico que haviam
montado para desenvolver seus trabalhos em fisiologia.
Outro compromisso fora da programação foi a visita ao Hospital dos
Allienados, um hospital para doentes mentais dirigido por Juliano Moreira.
Este último havia sugerido a Einstein aproveitar seu último dia no Rio,
quando estava com a agenda vaga, para ver o trabalho que ele estava
desenvolvendo no manicômio. Einstein se interessou em especial pelos casos
de paranóia, provavelmente devido aos problemas psíquicos de seu filho
Eduard. Eles visitaram ainda os serviços elétrico, fisioterápicos, oftalmoló-
gicos, neuro-psiquiátrico, entre outros e, em seguida, seguiram para um
almoço na casa de Juliano Moreira.
A programação de Einstein não se limitou, contudo, a área científica. Ele
participou de uma recepção no Automóvel Clube do Brasil, no sábado á
noite, promovida pela comunidade judaica, e visitou a Federação Sionista e a
Biblioteca Scholem Aleichem. Einstein também foi recebido pela comunidade
alemã, participando de um jantar no Clube Germânia e, na sua última noite
no Rio, tomou parte num jantar no Hotel Glória organizado pelo
embaixador alemão Knipping.
[
38] Seu programa contou ainda de uma
declaração na Rádio Sociedade, e uma visita a sede d'O Jornal, onde recebeu
de presente uma caixa de madeira com pedras preciosas do Brasil, em bruto e
lapidadas. Ele fez alguns passeios pela cidade e arredores, visitando pontos
turísticos como o Pão de Açucar, o Corcovado, e as praias do Rio de Janeiro.
Einstein assistiu ainda a um filme sobre o General Rondon, e seu trabalho de
integração dos índios, o que o levou a escrever posteriormente, do navio, uma
carta ao Comitê Nobel indicando Rondon para o Prêmio Nobel da Paz "pela
integração de tribos indígenas aos homens civilizados sem utilização de armas
nem coerção de qualquer natureza".
[
39] Einstein deixou o Rio de Janeiro de volta a Alemanha no dia 12 de maio, a bordo do Cap Norte.
Por vários motivos, o contato de Einstein com os professores que tinham
um interêsse mais específico em seu trabalho foi bastante reduzido. Amoroso
Costa e Thedoro Ramos não se encontravam na época no Rio de Janeiro. O
primeiro estava frequentando alguns cursos na Universidade de Letras de
Paris, e retornou apenas algumas semanas após a partida de Einstein, e
Ramos havia se transferido para São Paulo, onde era professor da Escola
Politécnica de São Paulo. Outros nomes como Léfo Gama ou Álvaro Alberto
da Motta e Silva, que se interessavam pela Relatividade e vieram a assumir
papel de destaque no meio científico brasileiro a partir do pós-guerra, eram
ainda jovens e seu envolvimento na visita se restringiu a artigos publicados
em jornais, ou participação em debates na Academia de Ciências. Einstein foi
recebido por diretores e presidentes de instituições, engenheiros responsáveis
por grandes obras, ou homens ligados á política, reconhecidos principalmente
por atividades técnico-administrativas, ou em outras áreas do conhecimento
que não a emergente fisica e matemática. Participaram, em especial, de sua
visita vários médicos. Isso se deu em primeiro lugar, por algumas
coincidências como o amigo em comum com Silva Mello, o contacto com
Juliano Moreira na Academia de Ciências, ou o fato de Aloysio de Castro
participar da Comissão da Liga das Nações com Einstein. Por outro lado,
denota a força e a influência da área de medicina naquela época no meio
científico brasileiro.
Einstein e a Teoria da Relatividade frequentaram diariamente as páginas
dos principais jornais do país. Assim como em todo o mundo, Relatividade
era confundida com relativismo, dando origem as mais diversas confusões e
finalidades. Ela era utilizada tanto para fazer propaganda de casa lotérica,
como para criticar o custo de vida. Um articulista d'O Jornal, em meio a essa
confusão, afirmou que a essência da Teoria da Relatividade é a máxima
"Tudo no universo é relativo" para, a partir daí, tentar mostrar sua
contradição lógica. Segundo ele, se tudo no universo é relativo, também é
relativa esta lei, ou seja, ela comporta excessões, então ela admite que possa
haver algo de absoluto - então, ele chega a conclusão que "nem tudo no
universo é relativo". Por outro lado, se a lei de Einstein estivesse certa e tudo
fosse de fato relativo, então esta seria uma proposição absoluta, demons-
trando que nem tudo é relativo!
[
40]
Os jornais não poupavam adjetivos ao se referirem a Emstein. Seu nome era
muitas vezes substituído por sábio, pensador ou gênio. Isso significava, por um
lado, a ausência de termos que o caracterizassem, visto que não havia no
Brasil a categoria social do físico ou do matemático. Usava-se, em geral, para
os cientistas brasileiros, os termos professor ou doutor, este último quando
fosse engenheiro. Por outro lado, denota a forma como ele era visto, como
uma figura imaginária, sobrenatural, como "um gênio, com uma parcela de
divindade", como escreveria O Jornal em sua manchete.
[
41] Essa imagem de
Einstein como um ser meio divino é bem retratada no relato da entrevista
feita por Jorge Santos:
"Tenho feito entrevistas de todas as naturezas. Mas um sábio eu
jamais ouvira. Sim, senhores, um sábio de verdade, um sábio
que fosse urbi et orbi.
Um Galileu, um Newton, um Pascal! Enfim, um desses super-
homens que para nós, selvagens e analfabetos habitantes destes
Brazis, só existem nas monografias e nos dicionários, e dos
quais só temos notícia, de quando em vez, pelos efeitos de suas
obras superiores, um desses predestinados que não se encontram
na fauna indígena e de cuja existência chegamos a duvidar, ás
vezes, porque dela nenhuma prova material nos é dada! Eu
queria um sábio á antiga, um sabichão em carne e osso em cujo
abdomem eu pudesse dar piparotes íntimos que me deixassem a
certeza da sua erudita realidade; cujas mãos eu pudesse apertar e
cujos braços e pernas eu apalpasse para poder jurar depois que o
sábio estava vivo e era feito da mesma massa que tu e eu, leitor
amigo". [42]
Também  publicados artigos de cientistas, criticando de forma mais
fundamentada a Teoria da Relatividade, ocasionando uma repercussão ainda
maior a sua visita. Um deles foi do jurista Pontes de Miranda, autor de uma
grande obra que objetivava construir a ciência do direito segundo a idéia
positivista, intitulada Systema de Sciencia Positiva do Direito, e mereceu uma
resposta de Einstein durante o jantar oferecido em sua última noite pelo
embaixador alemão.
[
43] Outro artigo foi de Licinio Cardoso, A Relatividade
Imaginária, apresentado posteriormente pelo próprio Licinio na sessão da
Academia de 25 de maio, detonando um debate que envolveu Adalberto
Menezes de Oliveira, Álvaro Alberto e Ignacio do Amaral, e perdurou por
várias sessões.
[
44] Por fim, na sessão de 8 de julho, Roberto Marinho fez uma
comunicação intitulada Resposta a algumas objeccões levantadas entre nós
contra a Theoria da Relatividade, respondendo especificamente ao artigo de
Licinio Cardoso.
[
45] Um terceiro artigo criticando a Theoria da Relatividade
foi do Almirante Gago Coutinho, sócio do Clube de Engenharia, mas
aparentemente não ocasionou uma repercussão maior.
[
46]
A repercussão da visita de Einstein foi explicitada ainda no relatório que a
Comissão de Recepção fez para o Conselho Diretor do Clube de Engenharia:
"(...) tendo sido a sua estadia no Rio de Janeiro um dos fatos
culminantes da nossa vida intelectual, pelas manifestações que
provocou, pró ou contra a doutrina científica de que é emérito
propugnador, devemos hoje desta visita nos ocupar..." [47]
Nessa frase consta ainda um outro elemento, presente também em alguns
dos artigos publicados, que compreende Einstein como divulgador de uma
crença, e não como formulador de um conceito ou teoria científica. Muitas
vezes, a divergência parecia estar não na oposição de uma teoria contra outra,
mas no choque de doutrinas religiosas distintas, daqueles que defendiam o
Apostolado Positivista contra os adeptos de um imaginário "Apostolado
Relativista". Gago Coutinho, por exemplo, iniciou seu artigo afirmando que
"Poderá interessar ao público um resumo dos ataques, que tem
sido feitos á Relatividade - agora que aí está quem tão bem a
sabe defender". [E conclui:] "Tanta incerteza não tem feito,
contudo, desanimar os fanáticos da religião relativista". [48]
Contudo, as questões centrais nas críticas formuladas contra a Teoria da
Relatividade eram bem mais estruturadas, e estavam relacionadas á abstração
e seu distanciamento do mundo sensível. Assim, por exemplo, Licinio
Cardoso escreveu em seu artigo:
"que o profressor Einstein confundindo os pontos de vista
abstrato e concreto, toma por objetivo o que é subjetivo e vice-
versa, e não distingue entre ciencia abstrata e relações
particulares das existências concretas, conforme já deixei
referido". [49]
E, posteriormente, durante as discussões na Academia de Ciência, ele
"insistiu em mostrar que todos os enganos de Einstein resultam da confusão
entre a ciência abstrata e a ciência concreta".
[
50] De forma semelhante, Pontes
de Miranda estava preocupado em seu artigo com a definição do real e da
abstração nos conceitos de espaço, tempo e matéria na Teoria da
Relatividade, e Gago Coutinho ressaltou que aquilo era "muito barulho
por nada", visto que as dimensões do tempo e do espaço eram na prática
insignificantes e estavam, portanto, fora do mundo concreto.
[
51]
As críticas levantadas contra a Relatividade pelos adeptos do positivismo
retratavam a questão de fundo da dicotomia entre a ciência pura e a ciência
aplicada. Ela refletia o fato das novas teorias científicas não terem, pelo
menos até aquela época, uma consequência prática. Diferentemente da física
tradicional, a física quântica ou relativística se relacionava na maioria das
vezes a grandezas muito grandes ou muito pequenas, que se situavam
completamente fora da realidade humana, e não traziam aparentemente
nenhuma utilidade. Além disso, e de forma mais radical, as novas teorias
colocavam em questão a essência do conhecimento científico e de como ele
era produzido. Enquanto na física clássica a produção do conhecimento se
dava a partir da observação de um fenômeno, e da posterior tentativa de
explicá-lo, a física quântica ou relativista não partia da observação da
natureza, ela consistia numa construção mental, que poderia ser provada na
natureza, ou não. Isso conferia a nova física um caráter de abstração que
assustava e repelia os físicos acostumados a ciência tradicional. Grande parte
das críticas feitas á Teoria da Relatividade residiam no fato de ser algo
abstrato, sem uma base material que a corroborasse. A matemática também
possuía uma função diferente, ela fazia tradicionalmente o papel de traduzir,
através de determinada linguagem simbólica a realidade que é observada e
verificada. Ela descrevia aquilo que é observado na natureza. Já a matemática
não euclidiana apresentava o caráter de operação, no sentido de construir um
ambiente artificial para verificar a realização de um evento. Nesse caso, o
cálculo não traduzia a natureza, mas a substituía, seja realizando
experimentos simulados que não acontecem sem a intervenção humana, ou
acessando domínios que a observação humana, mesmo com sua sofisticação
tecnológica, é incapaz de alcançar. Os símbolos da geometria abstrata nada
poderiam dizer sobre os objetos da realidade física. Amoroso Costa explicitou
com clareza a distinção conceitual presenta naquela época entre ciência pura
e ciência aplicada:
"Na primeira, abstrai-se inteiramente dos elementos acessíveis á
experiência, e constroem-se teorias de uma extrema generali-
dade. As entidades consideradas são puros símbolos, cujas
propriedades decorrem de postulados sujeitos apenas ás leis da
razão. Na segunda parte, que historicamente precedeu a
primeira, êsses símbolos adquirem significação concreta, e
admite-se que lhes correspondem certos objetos - intuições e
grupos de dados sensíveis - cujas relações satisfazem os
postulados desta ou daquela teoria da matemática pura". [52]
Essa discussão não se encerrou pela escolha dos vencedores, ou o
convencimento da maior validade de uma ou outra concepção. Ela refletia
uma idéia básica de ciência, que não poderia ser modificada pela prova do
mais correto. Essa substituição só se deu vagarosamente, pela própria
mudança de gerações, e pela criação de locais próprios para seu
desenvolvimento.
Assim, se as palestras de Einstein, por um lado, não  suficientes para
promover, de forma ampla, a absorção das novas teorias flsicas, em especial a
Relatividade, por outro, criou um clima de receptividade em torno da sua
figura. Instituiu-se uma relação de proximidade para com Einstein, que
produziu uma espécie de escudo refratário a críticas. Durante o debate na
Academia, Ignácio de Azevedo afirmou que
"tendo o Sr. Licinio Cardoso, tratando do "princípio da
relatividade", combatido Einstein que foi recentemente e por
unanimidade aclamado Membro Correspondente da Academia,
seria uma descortezia ao Sr. Licinio por um lado, e por outro
lado á Academia, se se mantivessem em silêncio os que elegeram
Einstein". [53]
As instituições continuaram homenageando Einstein mesmo após sua
partida. A Academia de Ciências empreendeu um grande esforço para editar
um novo número de sua Revista, interrompida desde 1922, de forma a poder
publicar a comunicação que Einstein havia feito durante sua visita. Também
o Clube de Engenharia homenageou Einstein, tornando-o sócio honorário, e
colocando seu retrato autografado na sala de honra da instituição. Assim, se
sua visita não teve uma influência direta sobre o meio acadêmico brasileiro,
no sentido de promover suas idéias, trouxe, por outro lado, uma maior
proximidade á pessoa de Einstein, e por consequência um maior cuidado nas
críticas as novas teorias. Contudo, a introdução sistemática do Brasil nas
novas áreas da flsica e matemática se daria, somente, na década seguinte, com
a criação da Universidade de São Paulo em 1934, tendo Theodoro Ramos
como Diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, e da Universidade
do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, em 1935, com Roberto Marinho de
Azevedo como Diretor da Faculdade de Ciências.
Várias pessoas auxiliaram para a realização desse artigo, entre as quais
gostaria de citar Jeffrey Lesser, Heloisa Bertol Domingues, Beatriz Bach e
Patricia Tolmasquim. Agradeço ainda os arquivistas do Albert Einstein
Archives - Jerusalem, em especial seu curador Zéev Rozenkranz, bem como
os arquivistas do Museu de Astronomia e Ciências Afins e da Academia
Brasileira de Ciências e das Bibliotecas Nacionais do Rio de Janeiro e de
Jerusalem. Também ressalto a contribuição de Isidoro Maria da Silva Alves e Christina Helena da Motta Barboza, que participaram junto comigo de um
projeto inicial de pesquisa sobre a ciência no Brasil, intitulado Constituição e
diferenciação do campo científico no Brasil: as relações Astronomia / Física
no período de 1870 a 1930. Grande parte das pesquisas foi realizada durante
meu pós-doutorado no Edelstein Center for the History and Philosophy of
Science, Technology and Medice, da Universidade Hebraica de Jerusalem, a
quem agradeço a acolhida, e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento
Científico e Tecnológico - CNPq que me forneceu a bolsa de estudos.