Inicio / Home arrow 2004 - 2005 arrow Volumen 15: 1 arrow Reseñas de Libros arrow Perfis Cruzados: trajetórias e militância política no Brasil.
Perfis Cruzados: trajetórias e militância política no Brasil. Imprimir E-Mail
BEATRIZ KUSHNIR (org.): R.J.: Imago, 2002
Nessa coletânea de dez narrativas, se reconstroem diversas experiências da oposição ao regime autoritário inaugurado em 1964 no Brasil. Cada uma das narrativas trata de algum aspecto dos opositores à última ditadura militar brasileira. Elas resgatam diversos atores da resistência, não são apenas memórias "da esquerda" da luta armada no Brasil, tema que conta com vários trabalhos significativos e completos. Trata-se de um conjunto de textos, unidos pelo único objetivo de relembrar um momento trágico da História nacional. Entre eles não há nada capaz de traçar uma mesma linha de narração. Cada um segue padrões e objetivos próprios. Uns, epistolares e contundentes. Outros, acadêmicos e herméticos. Todos singulares e imprescindíveis para a compreensão do passado recente.

Olivro vem em auxílio dos que querem compreender a violência estatal no Brasil, mostrando como a resistência ao regime pós-64, embora romântica e às vezes inconseqüente, contribuiu para recuperar a democracia eleitoral hoje consolidada. Os trabalhos que compõe essa coletânea destacam a importância da oposição, sem a qual não existe caminho para as soluções viáveis. Repete, neste sentido, o que disse certa vez Namier: "os historiadores imaginam o passado e se lembram do futuro", pois os relatos são um pouco isso: qual o significado das torturas entre "liberdade e busca" daqueles jovens que pegaram em armas contra a injustiça representada pela ditadura daqueles anos sem fim --para lembrar o livro de Zuenir Ventura: 1968, o ano que não terminou?

Os dois primeiros textos tratam de velhos, experientes militantes. O primeiro, sobre Câmara Ferreira, retrata --às vezes carregando as tintas da mitificação-- sua inserção como líder heróico da resistência às ditaduras, acompanhando episódios de sua vida desde os anos 30. Neste caso, o título não podia ser mais adequado ("Meu amigo Câmara"), pois é da queda heróica do "amigo-mito" que fala o autor. Já o segundo, depois de uma curta introdução, reproduz uma entrevista com Antonio Callado. Concedida pouco tempo antes de sua morte, mostra a lucidez deste simpatizante quase-militante da esquerda nacional. Digo isto porque em certa altura, falando sobre a América Latina, ele afirma: "...eu tenho a impressão que esses países não têm o menor futuro (...) Sobretudo o Brasil, porque o Brasil ainda por cima gosta [da dominação e das migalhas jogadas pelos ricos para os pobres]. Os argentinos tem mais, digamos assim, insolência do que nós..." (p. 42), palavras que evidenciam sua desilusão com a esquerda. A entrevista, diferente da memória, não é algo que se pensa de alguém, mas uma importante fonte direta, do próprio protagonista, para descortinar uma época.

Os textos subseqüentes, assinados por Ivan Seixas e Denise Rollemberg, traçam perfiles de Joaquim Alencar de Seixas e Carlos Eugênio Sarmento Coêlho da Paz (Clemente), de forma quase romanceada. No primeiro caso, narra-se um episódio que ao ler sentimo-nos dentro de um filme policial. Já o segundo, parece um conto açucarado da dura vida do militante que sobrevive.

Com exceção do capítulo 6, comentado mais a frente, os demais são escritos em estilo acadêmico, com citações e referências bibliográficas, mostrando como era a oposição, não apenas de esquerda --o último texto é dedicado a Adauto Lúcio Cardoso, político udenista-arenista-- naqueles "anos de chumbo". O texto de Kushnir, justamente a organizadora do livro, debruça-se sobre a história de alguns dos judeus mortos sob a ditadura militar, mostrando, como ela afirma, a opção desses judeus pela nacionalidade brasileira, construindo-se uma nova identidade. Assim, talvez para compreender uma época a partir da condição de judeus, a autora constrói um mosaico pouco articulado no qual sobressai, como símbolo daqueles anos 60-70, a velocidade de mudanças e perdas, a sensação do inacabado, a sobrevivência como único objetivo.

Do nosso ponto de vista o melhor texto, bem escrito e representativo do próprio signo da época, é o capítulo 6, dedicado a dois marinheiros desertores cujas vidas e valores não os une, mas os separa. Entretanto, a luta armada, a necessidade da revolução, a coragem de opor-se à ditadura, torna-os cúmplices e mártires de uma história inacabada. Escrito na forma de episódios, o autor narra as ações e quedas daqueles dois marinheiros-revolucionários e, ao fazê-lo, também traça o perfil psicológico dos seus companheiros de luta, todos prisioneiros no mesmo cárcere.

O outro lado dos textos, ainda não avaliado, aquele do dito, tem muito menos de comum. São dez relatos que, aparentemente, tratam do mesmo problema: a tortura, morte e sobrevivência daqueles que pegaram em armas em nome de um sonho justo --o socialismo--, e anti-autoritário. Todavia, não é disso que se trata. Nem na forma, nem no conteúdo, nem na análise/objeto há uma única linearidade narrativa.

Algumas trajetórias são traçadas a partir de pequenos fragmentos, formando um mosaico nem sempre articulado, mas é precisamente isso que constitui o mérito e o defeito deste livro. Lido de uma vez, deixa a impressão de que não existe conjunto, que se trata de um emaranhado de histórias que mesclam ficção com realidade. Ao contrário, se tomarmos cada capítulo como unidade, percebe-se que a coerência estájustamente no fragmento, cada um compondo um pequeno prisma do desenho de uma época.

Fora a descontinuidade, a marca indelével dessa mal costurada coletânea, o que fica, repetindo o temor da organizadora, é a sensação de que estamos diante das histórias de crianças peraltas que não quiseram aprender a lição. Lição que, por um lado, cobra dos sobreviventes o ter sobrevivido --mesmo sendo a sobrevivência o grande objetivo de quem luta--, a falta de solidariedade por não ter morrido, por ter conseguido sair com vida da trama de sangue e dor que ceifou uma legião de jovens idealistas. Neste caso, o ajuste de contas com o passado é trágico: significa conviver com o espectro da falida Revolução, dos amantes-amigos caídos e mutilados.

Correndo o risco de não compreender a obra, advertido pela organizadora, o leitor pode pensar que a trajetória desses revolucionários foi marcada pela necessidade juvenil de afirmação. Como diz a epígrafe (hai-kai) inicial, de João Suzuki: "Uma multidão de crianças/ que só queriam brincar portando espadas de papel/ perdeu-se no tempo!". A despeito das lágrimas e do sangue derramado; das inconvenientes sobrevivências e as irreversíveis quedas; das dores e tristezas maternas, fica a imagem das crianças errantes em busca de um futuro que jamais existiria, inconscientes da alteração de rota que se abateria sobre o Continente naquele período, prenhe de mudanças e parturiente de frustrações.

Nessa mistura de textos, alguns na forma de conto romanceado, outros de narrativa à bang-bang, até os estritamente acadêmicos, o comum é a certeza da importância histórica da memória. Da necessidade de recuperar as marcas de um passado ainda recente e que teima em queimar, no altar dos sacrifícios da democracia, periódicas gerações de jovens para alimentar o interminável capítulo da historia dos silenciados.

 

Suzeley K. Mathias Universidade Estadual Paulista, Campus de Franca
 
< Anterior   Siguiente >