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BEATRIZ KUSHNIR (org.):
R.J.: Imago, 2002
Nessa
coletânea de dez narrativas, se reconstroem diversas
experiências da oposição ao regime autoritário
inaugurado em 1964 no Brasil. Cada uma das narrativas trata de algum
aspecto dos opositores à última
ditadura militar brasileira. Elas resgatam diversos atores da
resistência, não são apenas memórias "da
esquerda" da luta armada no Brasil, tema que conta com vários
trabalhos significativos e completos. Trata-se de um conjunto de
textos, unidos pelo único objetivo de relembrar um momento
trágico da História nacional. Entre eles não há
nada capaz de traçar uma mesma linha de narração.
Cada um segue padrões e objetivos próprios. Uns,
epistolares e contundentes. Outros, acadêmicos e herméticos.
Todos singulares e imprescindíveis para a compreensão
do passado recente.
Olivro vem em auxílio dos que querem compreender a violência
estatal no Brasil, mostrando como a resistência ao regime
pós-64, embora romântica e às vezes
inconseqüente, contribuiu para recuperar a democracia eleitoral
hoje consolidada. Os trabalhos que compõe essa coletânea
destacam a importância da oposição, sem a qual
não existe caminho para as soluções viáveis.
Repete, neste sentido, o que disse certa vez Namier: "os
historiadores imaginam o passado e se lembram do futuro", pois
os relatos são um pouco isso: qual o significado das torturas
entre "liberdade e busca" daqueles jovens que pegaram em
armas contra a injustiça representada pela ditadura daqueles
anos sem fim --para lembrar o livro de Zuenir Ventura: 1968, o ano
que não terminou?
Os
dois primeiros textos tratam de velhos, experientes
militantes. O primeiro, sobre Câmara Ferreira, retrata --às
vezes carregando as tintas da mitificação-- sua
inserção como líder heróico da
resistência às ditaduras, acompanhando episódios
de sua vida desde os anos 30. Neste caso, o título não
podia ser mais adequado ("Meu amigo Câmara"), pois é
da queda heróica do "amigo-mito" que fala o autor.
Já o segundo, depois de uma curta introdução,
reproduz uma entrevista com Antonio Callado. Concedida pouco tempo
antes de sua morte, mostra a lucidez deste simpatizante
quase-militante da esquerda nacional. Digo isto porque em certa
altura, falando sobre a América Latina, ele afirma: "...eu
tenho a impressão que esses países não têm
o menor futuro (...) Sobretudo o Brasil, porque o Brasil ainda por
cima gosta [da dominação e das migalhas jogadas pelos
ricos para os pobres]. Os argentinos tem mais, digamos assim,
insolência do que nós..." (p. 42), palavras que
evidenciam sua desilusão com a esquerda. A entrevista,
diferente da memória, não é algo que se pensa de
alguém, mas uma importante fonte direta, do próprio
protagonista, para descortinar uma época.
Os
textos subseqüentes, assinados por Ivan Seixas e Denise
Rollemberg, traçam perfiles de Joaquim Alencar de Seixas e
Carlos Eugênio Sarmento Coêlho da Paz (Clemente), de
forma quase romanceada. No primeiro caso, narra-se um episódio
que ao ler sentimo-nos dentro de um filme policial. Já o
segundo, parece um conto açucarado da dura vida do militante
que sobrevive.
Com
exceção do capítulo 6, comentado mais a frente,
os demais são escritos em estilo acadêmico, com citações
e referências bibliográficas, mostrando como era a
oposição, não apenas de esquerda --o último
texto é dedicado a Adauto Lúcio Cardoso, político
udenista-arenista-- naqueles "anos de chumbo". O texto de
Kushnir, justamente a organizadora do livro, debruça-se sobre
a história de alguns dos judeus mortos sob a ditadura militar,
mostrando, como ela afirma, a opção desses judeus pela
nacionalidade brasileira, construindo-se uma nova identidade. Assim,
talvez para compreender uma época a partir da condição
de judeus, a autora constrói um mosaico pouco articulado no
qual sobressai, como símbolo daqueles anos 60-70, a velocidade
de mudanças e perdas, a sensação do inacabado, a
sobrevivência como único objetivo.
Do
nosso ponto de vista o melhor texto, bem escrito e representativo do
próprio signo da época, é o capítulo 6,
dedicado a dois marinheiros desertores cujas vidas e valores não
os une, mas os separa. Entretanto, a luta armada, a necessidade da
revolução, a coragem de opor-se à ditadura,
torna-os cúmplices e mártires de uma história
inacabada. Escrito na forma de episódios, o autor narra as
ações e quedas daqueles dois
marinheiros-revolucionários e, ao fazê-lo, também
traça o perfil psicológico dos seus companheiros de
luta, todos prisioneiros no mesmo cárcere.
O
outro lado dos textos, ainda não avaliado, aquele do dito, tem
muito menos de comum. São dez relatos que, aparentemente,
tratam do mesmo problema: a tortura, morte e sobrevivência
daqueles que pegaram em armas em nome de um sonho justo --o
socialismo--, e anti-autoritário. Todavia, não é
disso que se trata. Nem na forma, nem no conteúdo, nem na
análise/objeto há uma única linearidade
narrativa.
Algumas
trajetórias são traçadas a partir de pequenos
fragmentos, formando um mosaico nem sempre articulado, mas é
precisamente isso que constitui o mérito e o defeito deste
livro. Lido de uma vez, deixa a impressão de que não
existe conjunto, que se trata de um emaranhado de histórias
que mesclam ficção com realidade. Ao contrário,
se tomarmos cada capítulo como unidade, percebe-se que a
coerência estájustamente
no fragmento, cada um compondo um pequeno prisma do desenho de uma
época.
Fora
a descontinuidade, a marca indelével dessa mal costurada
coletânea, o que fica, repetindo o temor da organizadora, é
a sensação de que estamos diante das histórias
de crianças peraltas que não quiseram aprender a lição.
Lição que, por um lado, cobra dos sobreviventes o ter
sobrevivido --mesmo sendo a sobrevivência o grande
objetivo de quem luta--, a falta de solidariedade por não ter
morrido, por ter conseguido sair com vida da trama de sangue e dor
que ceifou uma legião de jovens idealistas. Neste caso, o
ajuste de contas com o passado é trágico: significa
conviver com o espectro da falida Revolução, dos
amantes-amigos caídos e mutilados.
Correndo
o risco de não compreender a obra, advertido pela
organizadora, o leitor pode pensar que a trajetória desses
revolucionários foi marcada pela necessidade juvenil de
afirmação. Como diz a epígrafe (hai-kai)
inicial, de João Suzuki: "Uma multidão de
crianças/ que só queriam brincar portando espadas de
papel/ perdeu-se no tempo!". A despeito das lágrimas e do
sangue derramado; das inconvenientes sobrevivências e as
irreversíveis quedas; das dores e tristezas maternas, fica a
imagem das crianças errantes em busca de um futuro que jamais
existiria, inconscientes da alteração de rota que se
abateria sobre o Continente naquele período, prenhe de
mudanças e parturiente de frustrações.
Nessa
mistura de textos, alguns na forma de conto romanceado, outros de
narrativa à bang-bang, até os estritamente
acadêmicos, o comum é a certeza da importância
histórica da memória. Da necessidade de recuperar as
marcas de um passado ainda recente e que teima em queimar, no altar
dos sacrifícios da democracia, periódicas gerações
de jovens para alimentar o interminável capítulo da
historia dos silenciados.
| Suzeley K. Mathias |
Universidade Estadual Paulista, Campus de Franca |
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